Derivação do termo latino “Re-Ligare”, que
significa “religação” com o Divino, a religião é o culto prestado a uma
divindade. Trata-se da crença na existência de um ente supremo como lei universal.
Apesar dos aspectos que distinguem a filosofia e doutrina de cada crença, a
“fé” e o “amor” aparecem na base de praticamente todas as propostas religiosas.
Segundo estimativas do Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE) a religião Católica ocupa o primeiro lugar no
ranking da fé no Brasil, ao todo 70% dos entrevistados. Em segundo lugar vem a
Igreja Evangélica com 17% da população. As outras religiões que compõem o
mosaico da diversidade estão bem divididas, entre elas, destacam-se o
Islamismo, religião que mais cresce no mundo, embora por aqui sua presença
ainda seja menor que a do Judaísmo (87 mil) e a do Budismo (214,8 mil). Os
seguidores da Umbanda e do Candomblé somam 515 mil e os Espíritas lideram o
ranking dos menores, com 2,3 milhões.
Com a busca incessante pelo sentido da vida, as
pessoas caminham cada vez mais rumo à religiosidade. E nossos amigos pets? Como
são vistos perante a doutrina das maiores religiões do mundo?
Catolicismo
A Igreja Católica nasceu com a presença e pregação
do próprio Jesus Cristo. “A partir do anúncio da vida, morte e ressurreição de
Cristo somos convocados ao amor, à solidariedade, justiça e a transformar o
mundo, para que aqui já se inicie o Reino de Deus”, explica o padre Juarez
Pedro de Castro, da Arquidiocese de São Paulo.
Considerada a religião com maior número de fiéis
no País, a Igreja Católica acredita que os animais são criaturas de Deus e por
isso devem ser respeitados e amados. “A Igreja sempre considerou a proteção e o
amor aos animais como algo importante. A própria Bíblia obriga o descanso
semanal não só para o homem como também para os animais”, destaca padre Juarez.
Embora admitam que o convívio com os animais seja benéfico aos seres humanos e
simbolizem um sinal de amizade fiel, para os católicos os bichos não possuem a
alma racional e inteligente, e, portanto não têm o mesmo destino dos homens e
mulheres após a morte.
Um dos Santos mais populares da Igreja Católica,
São Francisco de Assis amava e respeitava todas as pessoas, ao mesmo tempo, em
que protegia animais e plantas aos quais chamava, carinhosamente, de irmãos.
Considerado o santo mais amigo dos animais, foi intitulado Patrono do Presépio
e dos Ecologistas. Graças à sua mensagem de paz, é respeitado por várias
religiões, e sua Basílica em Assis, na Itália, é a segunda mais visitada por
turistas de todo o mundo, ficando atrás apenas do Vaticano. Conhecido como
protetor dos animais, São Francisco de Assis pregava que os bichos não são
coisas, objetos nem serviçais, mas sim companheiros dos humanos, e devem ser
respeitados, assim como toda a natureza. “Os animais não são coisas nem
objetos, são criaturas de Deus, ou seja, criados por Deus segundo o relato
bíblico e por isso devem ser amados e respeitados. É bom que se diga que antes de
toda essa “moda” atual de proteção aos animais, quem sempre levantou a voz para
protegê-los foi a Igreja Católica, que já desde os primórdios proibia e ainda
proíbe, considerando pecado, a vivissecção de animais para fins de estudo”,
ressalta padre Juarez.

Igreja Adventista do Sétimo Dia
A igreja Adventista do Sétimo Dia surgiu nos EUA
no século XVIII com o despertar protestante para a doutrina da segunda vinda
gloriosa de Jesus a este mundo (Apocalipse 1:7).
“Adventista é um termo que se refere a uma pessoa
que “acredita no segundo advento (volta) literal de Cristo”. E Adventista “do
Sétimo Dia” é uma referência ao dia que observamos (Êxodo 20:8-11), dedicando-o
ao repouso, culto a Deus, companhia da família e contato com a natureza”,
explica Leandro Quadros, consultor bíblico da Rede Novo Tempo de Comunicação.
Assim como a Bíblia, para a religião Adventista
os animais são considerados companheiros do ser humano. “O livro de Gênesis
relata que quando Adão e Eva foram criados, Deus também fez os animais para que
juntamente com os seres humanos desfrutassem das alegrias do jardim do Éden
(Gênesis 1:20-22). Ao criar os animais no quinto dia, Deus disse que aquela
criação era “boa”, destaca Leandro.
Para os adventistas é importante lutar pela
preservação da vida animal, levando ao pé da letra citações bíblicas, como as
encontradas em Apocalipse 11:18, onde há uma séria advertência para quem
maltrata os animais: “terá que prestar contas a Deus no dia do juízo final”.
“O fato de Deus ter criado os animais no quinto
dia da criação e o ser humano no sexto, demonstra que o reino animal fazia
parte do preparo do planeta para receber a “coroa da criação de Deus”: homem e
mulher. A felicidade humana também estava no contato com a natureza animal.
Além disso, estudos científicos provam que a Bíblia está com a razão. Pessoas
que têm algum bichinho de estimação possuem menos possibilidades de terem algum
problema de coração”, enfoca Leandro.
Baseando sua crença em textos bíblicos como
Gênesis 2:7 e Gênesis 1:20, os adventistas acreditam que o ser humano se tornou
alma (e não que recebeu uma alma), ou seja, tornou-se uma pessoa viva, no
conceito bíblico, onde os animais vivos também são chamados de “almas”. Sendo
assim, como os homens não possuem vantagens sobre os animais, pregam que ao
morrer ambos vão para o mesmo lugar, sem diferenças: todos procedem do pó e ao
pó tornarão.
“Não cremos que seres humanos e animais tenham
alma, mas sim que são almas. O conceito bíblico de “alma” não é o mesmo que o
apresentado por Platão e pela filosofia grega. Alguns dos textos citados devem
encher de alegria os leitores da revista Papo de Pet que perderam pessoas
queridas e animaizinhos de estimação, pois, ambos existirão novamente em nosso
Planeta renovado, afirma Leandro que finaliza: Ao orientar Noé a sair da arca,
além de abençoar a raça humana o Senhor abençoou também os animais (Gênesis
8:15-17)”.
Judaísmo
O Judaísmo surgiu há mais de 4 mil anos. Segundo
sua principal fonte escrita, a Torá, Abrahão foi o primeiro hebreu, ao
reconhecer que um mundo tão diverso de seres e de vida só poderia ter sido
criado por um único Deus.
“Acreditamos na existência de um único Deus,
Criador do Universo e de todas as criaturas. Deus fez do ser humano seu
parceiro para cuidar do mundo onde vivemos, o que se reflete na preocupação com
a consciência e a ação ecológica. O Judaísmo é uma religião focada mais na
ação. Acreditamos que a responsabilidade social, ecológica e o cuidado na
relação com as pessoas, com os animais e as plantas é inclusive mais importante
do que a fé. É pela ação prática que podemos tornar este mundo um lugar melhor
de se viver”, explica o rabino Ruben Sternschein, da Congregação Israelita
Paulista, de São Paulo.
Segundo o judaísmo há um valor básico na relação
entre seres humanos e animais, que é chamado de tsáar baalei haim. Há ainda a
mitsvá, a obrigação de não causar sofrimento aos seres vivos – o modo judaico
milenar de ação ecológica. “O respeito às árvores e às plantas em geral, bem
como aos animais, é fundamental. Em nosso dia de descanso, o Shabat, não
somente os seres humanos não trabalham; os animais também não. Os animais de
corte, como vacas e galinhas, são sacrificados com cuidados especiais segundo
as leis de cashrut, visando diminuir o seu sofrimento ao máximo. Enfim, temos
uma sensibilidade especial pelo planeta, pela natureza em geral e pelos animais
em particular. Quanto aos animais de estimação, como cães e gatos, valorizamos
o contato com o próximo, gostamos de trazê-los para casa, alimentarmos e
cuidarmos. É uma das mais belas formas de amor e de respeito ao organismo
planetário como um todo”, revela o rabino Sternschein.
Islamismo
Para a religião Islâmica, a fonte única é Deus. Ela revelou todos os Livros
Sagrados e enviou todos os Mensageiros e Profetas. A partir do envio do Profeta
Mohamad como Mensageiro de Deus e a revelação do Alcorão Sagrado, começa essa
terceira e última etapa da religião Divina, aproximadamente, 613 D.C.. A
Religião Islâmica prega a crença verdadeira em seis pontos: crer em Deus Único;
crer nos Anjos; crer nos Livros Sagrados; crer em Seus Mensageiros; crer no dia
do Juízo-Final e crer no Destino.
“A religião ordena que os animais sejam tratados
com misericórdia. Quanto aos gatos é permitido tê-los como estimação, porém, os
cães, só podem ser utilizados para alguma finalidade que não seja somente
estimação, já que a religião diz que o cachorro tem em sua saliva uma
substância nociva ao ser humano, porém, pode tê-los como cães guia, para
proteção, para caça, etc”, revela o Sheikh Jihad Hassan Hammadeh, presidente do
Conselho de Ética da UNI (União Nacional das Entidades Islâmicas).
Segundo o Islamismo, os animais possuem alma já
que Deus, no dia do Juízo Final, irá devolver a vida a eles para fazer justiça
até entre eles. E ao morrer o corpo do animal vira terra e sua alma retorna
para Deus.
Ao ser indagado por seus companheiros se a
gentileza para com os animais seria recompensada na vida posterior, o Profeta
respondeu: “Sim, há uma meritória recompensa pela gentileza para com toda
criatura viva”
Budismo
Uma das vertentes do Budismo, religião que surgiu
na Índia há cerca de dois mil e seiscentos anos (seiscentos antes de Cristo), o
Zen Budismo prega que se faça o bem, e o bem a todos os seres.
“Os ensinamentos de Buda se baseiam na
impermanência (nada fixo, nada permanente, tudo se transformando a cada
instante), na interdependência (nada tem origem independente, mas a vida é uma
teia de inter-relacionamentos), nirvana (um estado de paz e tranquilidade
possíveis através das práticas religiosas e da compreensão do vazio), explica
Monja Coen, fundadora da Comunidade Zen-Budista de São Paulo.
E os animais fazem parte desta teia da
existência, desta rede de inter-relacionamentos, uma vez que os humanos não
vivem sem os animais. “Há várias histórias budistas sobre animais demonstrando
sua gratidão aos seres humanos que os salvaram, dando exemplo de como nós
deveríamos nos comportar. Animais estão presentes em vários contos budistas
como exemplos de fidelidade, gratidão e tranqüilidade”, revela Monja Coen.
Para o Budismo não há conceito de alma para
pessoas nem para animais. Tudo que existe é o co-surgir interdependente e
simultâneo. “Há três semanas meu cão, um Akita branco de treze anos, entrou
parinirvana. O nirvana final, a grande paz. Fizemos as mesmas cerimônias que
fazemos para quando morre um ser humano. A prece antes da morte, a logo após
morrer, a prece antes do enterro e durante o enterro e a prece que continuamos
a fazer de semana a semana. Acreditamos que até 49 dias após o falecimento
completa-se o ciclo de uma vida-morte. Assim oramos e agradecemos a vida que
compartilhou conosco e rogamos aos Budas e Bodisatvas que o encaminhem à
claridade suprema da sabedoria infinita e compaixão ilimitada”, relembra Monja
Coen, que finaliza: “Cada animal vive e age de acordo com sua natureza, mas
pode essa natureza também ser melhorada durante a vida através do treinamento e
da prática diária do convívio respeitoso e amoroso. Animais são seres
abençoados e sagrados – vamos cuidar deles e delas e seremos respeitadas por
toda a vida do universo”.

Umbanda
Trata-se de uma religião espiritualista e espírita, desvinculada de mitos,
lendas e crendices, que tem seus fundamentos no monoteísmo Divino, isto é, na
existência de um único Deus, gerador e sustentador de tudo e de todas as
coisas, inclusive de suas Forças Superiores Divinas – os Sagrados Orixás –
Divindades de Deus responsáveis por reger, adaptar e guardar suas
exteriorizações. A finalidade da Umbanda é gerar condições para a evolução dos
espíritos encarnados e desencarnados a ela ligados e a extinção de carmas
individuais ou coletivos, sendo carma a resultante (conseqüência) de
procedimentos (atos) errôneos quanto ao trato dos sentidos íntimos, pessoais ou
alheios. É uma religião que acredita na reencarnação dos espíritos, servindo
esta forma como um meio de evolução e possibilidade para realizar resgates
carmáticos. Em 2009, ano em que a Umbanda completa 100 anos, estima-se que já
tenha conquistado cerca de 20 milhões de seguidores no País, embora
estatísticas oficiais apontem um contingente bem menor. “Muitas pessoas
preferem omitir, por vergonha, porque acreditam que ainda existe muito
preconceito. É importante esclarecer que a religião Umbanda não mata nenhum
tipo de animal”, revela Pai Salum, da FUCESP – Federação de Umbanda e Candomblé
do Estado de São Paulo.
De acordo com Pai Salum, o sacrifício de animais
origina-se das raízes africanas do Candomblé, mas é totalmente desencorajado
pela Umbanda brasileira.
“Para ingressar na nossa Federação, avisamos que
não vamos defender quem matar qualquer tipo de bicho. Não apoiamos a matança de
animais. Assim como os Espíritas, acreditamos que os animais são seres vivos e
possuem alma”, esclarece Pai Salum.
Espiritismo
Diferente do que muitos imaginam o Espiritismo
não é uma nova religião, disputando a fé popular. Allan Kardec, nome que assina
as obras espíritas, como O Livro dos Espíritos, O Evangelho Segundo o
Espiritismo e O Livro dos Médiuns é um pseudônimo do professor Hipolyte Rivail,
que, por volta de 1855 pesquisou a comunicação com os espíritos.
Rivail criou um instituto de pesquisas, dialogou
com espíritos sábios e benevolentes, estudiosos da espiritualidade, e recolheu
valiosos conceitos sobre os mais diversos ramos do conhecimento, inclusive
sobre as características físico-químicas próprias da matéria em seu estado
espiritual, constituindo os corpos dos Espíritos e o Universo que eles habitam.
Após codificar toda essa gama de informações, publicou seus livros assinando-os
com o pseudônimo Allan Kardec, pois o conteúdo deles é a doutrina dos Espíritos
e não de sua autoria. Em seu ponto de partida, o Espiritismo é uma ciência,
dedicada a estudar os Espíritos e sua relação com os homens.
“Para o Espiritismo, os animais são seres
espirituais evoluindo por meio da transmigração, sem ainda possuir a
consciência de si mesmo característica do homem. Um dia, quando ganharem a
liberdade de escolha e uma consciência contínua, reencarnarão como homens. Como
intuiu Francisco de Assis, os animais e plantas têm uma natureza que os
aproxima dos homens. E numa figura poética extraordinária, os chamou de
irmãos”, revela Paulo Henrique de Figueiredo, pesquisador do Espiritismo há 25
anos, autor da obra Mesmer, a ciência negada e os textos escondidos e publisher
da revista Universo Espírita.
Segundo a Doutrina dos Espíritos, os animais
domésticos, como cachorro, gato, cavalo, macaco, possuem uma constituição
neural superior e uma inteligência relativa mais acentuada. Possuem uma longa
trajetória de convívio com os humanos, estabelecendo instintos sociais
compartilhados. “Há dezenas de milhares de anos, os cachorros vigiavam as
comunidades humanas durante a noite e, em troca, recebiam alimentos e
companhia. Além disso, os animais possuem uma alma que tem a mesma origem da
alma humana. Por isso, a afeição que sentimos por eles é natural e benéfica ao
relacionamento familiar”, avalia Figueiredo.
Para o Espiritismo, se os animais estão em
evolução, podemos auxiliá-los em sua trajetória quando agimos com ética e
responsabilidade no relacionamento que estabelecemos com eles. “Por isso, é
importante ensinar as crianças a cuidar bem dos animais, dar a eles carinho e
proteção. Já os adultos, precisam refletir sobre o estado de crueldade e escravidão
a que estão submetendo os animais destinados ao consumo humano, como bois,
porcos e galinhas. Nas granjas, os animais são tratados como coisas sem alma,
da mesma forma que os escravos eram considerados na idade média. A escravidão
humana está quase extinta, um dia a humanidade terá consciência suficiente para
libertar também os animais”, adverte Figueiredo. Fonte/PapodePet.