No dia 13 de Maio de 1917, três crianças (Lúcia
de Jesus dos Santos (10 anos), Francisco Marto (9 anos) e Jacinta Marto (7
anos) afirmaram ter visto "... uma senhora mais branca que o Sol"
sobre uma azinheira de um metro ou pouco mais de altura, quando apascentavam um
pequeno rebanho na Cova da Iria, freguesia de Aljustrel, pertencente ao conselho
de Vila Nova de Ourém, Portugal.
Lúcia via, ouvia e falava com a aparição, Jacinta via e ouvia e Francisco
apenas via, mas não a ouvia.
As aparições repetiram-se nos cinco meses seguintes e seriam portadoras de uma
mensagem ao mundo. A 13 de Outubro de 1917 a aparição disse-lhes ser a Nossa Senhora
do Rosário.
Os relatos destes acontecimentos foram redigidos pela Irmã Lúcia a partir de
1935, em quatro manuscritos, habitualmente designados por Memórias I, II, III e
IV e transcritos com outras fontes para este artigo.
Aparições do Anjo
Antes das aparições de Nossa Senhora na Cova da Iria em 1917, Lúcia, Francisco
e Jacinta tiveram no ano anterior três visões do Anjo, Anjo da Paz ou Anjo
de Portugal. Estas visões permaneceram inéditas até 1937, até Lúcia as
divulgar, pela primeira vez, no designado texto Memória II. A narração é mais
completa e o texto definitivo das orações do anjo é publicado na Memória IV,
escrito em 1941. As aparições do Anjo em 1916, foram precedidas por três
outras visões, de Abril a Outubro de 1915, nas quais Lúcia e outras três
pastorinhas, Maria Rosa Matias, Teresa Matias e Maria Justino viram, também no
outeiro do Cabeço, e noutros locais, suspensa no ar sobre o arvoredo do
vale "uma como que nuvem mais branca que a neve, algo transparente, com
forma humana. Era uma figura, como se fosse uma estátua de neve, que os raios
do sol tornavam algo transparente". A descrição é da própria irmã
Lúcia.

Primeira aparição
O relato da mais velha dos videntes, Lúcia, descreve assim os acontecimentos:
"Andava eu com os meus primos Francisco e Jacinta a cuidar do rebanho e
subimos a encosta em procura dum abrigo a que chamávamos a "Loca do
Cabeço". Depois de aí merendar e rezar, alguns momentos havia que
jogávamos e eis que um vento sacode as árvores e faz-nos levantar a vista para
ver o que se passava, pois o dia estava sereno. Então começamos a ver, a alguma
distância, sobre as árvores que se estendiam em direção ao nascente, uma luz
mais branca que a neve, com a forma dum jovem, transparente, mais brilhante que
um cristal atravessado pelos raios do Sol.
À medida que se aproximava, íamos-lhe distinguindo as feições. Estávamos
surpreendidos e meios absortos. Não dizíamos palavra. Ao chegar junto de nós,
disse: – Não temais. Sou o Anjo da Paz. Orai comigo. E ajoelhando
em terra, curvou a fronte até ao chão. Levados por um movimento sobrenatural,
imitamo-lo e repetimos as palavras que lhe ouvimos pronunciar: – Meu
Deus, eu creio, adoro, espero e amo-Vos. Peço-Vos perdão para os que não creem,
não adoram, não esperam e não Vos amam. Depois de repetir isto três
vezes, ergueu-se e disse: – Orai assim. Os Corações de Jesus e Maria
estão atentos à voz das vossas súplicas. E desapareceu.
A atmosfera do sobrenatural que nos envolveu era tão intensa, que quase não nos
dávamos conta da própria existência, por um grande espaço de tempo,
permanecendo na posição em que nos tinha deixado, repetindo sempre a mesma
oração. A presença de Deus sentia-se tão intensa e íntima que nem mesmo entre
nós nos atrevíamos a falar. No dia seguinte, sentíamos o espírito ainda
envolvido por essa atmosfera que só muito lentamente foi desaparecendo. Nesta
aparição, nenhum pensou em falar nem em recomendar o segredo. Ela de si o
impôs. Era tão íntima que não era fácil pronunciar sobre ela a menor palavra.
Fez-nos, talvez, também maior impressão, por ser a primeira assim
manifesta."
Segunda aparição
A segunda aparição deu-se no Verão de 1916, sobre o poço da casa dos pais de
Lúcia, junto ao qual as crianças costumavam brincar. Assim narra a Irmã Lúcia:
"Fomos, pois passar as horas da sesta à sombra das árvores que cercavam o
poço já várias vezes mencionado. De repente, vimos o mesmo Anjo junto de
nós. - Que fazeis? Orai! Orai muito! Os Corações de Jesus e Maria têm sobre vós
desígnios de misericórdia. Oferecei constantemente ao Altíssimo orações e
sacrifícios. – Como nos havemos de sacrificar? – perguntei. –
De tudo que puderdes, oferecei um sacrifício em ato de reparação pelos pecados
com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores. Atraí, assim,
sobre a vossa Pátria, a paz. Eu sou o Anjo da sua guarda, o Anjo de Portugal.
Sobretudo, aceitai e suportai com submissão o sofrimento que o Senhor vos
enviar. E desapareceu. Estas palavras do Anjo gravaram-se em nosso
espírito, como uma luz que nos fazia compreender quem era Deus, como nos amava
e queria ser amado, o valor do sacrifício e como ele Lhe era agradável, como,
por atenção a ele, convertia os pecadores.
Por isso, desde esse momento, começamos a oferecer ao Senhor tudo que nos
mortificava, mas sem discorrermos a procurar outras mortificações ou
penitências, exceto a de passarmos horas seguidas prostrados por terra,
repetindo a oração que o Anjo nos tinha ensinado."
Terceira aparição
A terceira aparição ocorreu no fim do Verão ou princípio de Outono de 1916,
novamente na "Loca do Cabeço", como descreve Lúcia: "Rezamos aí
o terço e (a) oração que na primeira aparição nos tinha ensinado. Estando,
pois, aí, apareceu-nos pela terceira vez, trazendo na mão um cálice e sobre
ele uma Hóstia, da qual caíam, dentro do cálice, algumas gotas de sangue.
Deixando o cálice e a Hóstia suspensos no ar, prostrou-se em terra e repetiu
três vezes a oração:
– Santíssima Trindade, Padre, Filho, Espírito Santo, adoro-Vos profundamente e
ofereço-Vos o preciosíssimo Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo,
presente em todos os sacrários da terra, em reparação dos ultrajes, sacrilégios
e indiferenças com que Ele mesmo é ofendido. E pelos méritos infinitos do Seu
Santíssimo Coração e do Coração Imaculado de Maria, peço-Vos a conversão dos
pobres pecadores. Depois, levantando-se, tomou de novo na mão o cálice
e a Hóstia e deu-me a Hóstia a mim e o que continha o cálice deu-o a
beber à Jacinta e ao Francisco, dizendo, ao mesmo tempo: – Tomai e bebei o
Corpo e o Sangue de Jesus Cristo horrivelmente ultrajado pelos homens ingratos.
Reparai os seus crimes e consolei o vosso Deus. De novo se prostrou em
terra e repetiu conosco mais três vezes a mesma oração: – Santíssima Trindade…
etc. E desapareceu. Levados pela força do sobrenatural que nos envolvia,
imitávamos o Anjo em tudo, isto é, prostrando-nos como Ele e repetindo as
orações que Ele dizia. A força da presença de Deus era tão intensa que nos
absorvia e aniquilava quase por completo. Parecia privar-nos até do uso dos
sentidos corporais por um grande espaço de tempo. Nesses dias, fazíamos as
ações materiais como que levados por esse mesmo ser sobrenatural que a isso nos
impelia. A paz e felicidade que sentíamos era grande, mas só íntima,
completamente concentrada a alma em Deus. O abatimento físico, que nos prostrava,
também era grande."
A imagem de Nossa Senhora na Capelinha das Aparições
em Fátima.
Brincavam os três pastorinhos na Cova da Iria, uma pequena propriedade
pertencente aos pais de Lúcia, localizada a 2,5 km de Fátima, quando por
volta do meio-dia e depois de rezarem o terço, observaram dois clarões como se
fossem relâmpagos. Com receio de começar a chover, reuniram o rebanho e
decidiram ir-se embora, mas no caminho e logo abaixo, outro clarão teria
iluminado o espaço. Nesse instante, teriam visto em cima de uma pequena
azinheira (onde agora se encontra a Capelinha das Aparições), "era uma
Senhora vestida de branco e mais brilhante que o Sol, espargindo luz mais clara
e intensa que um copo de cristal cheio de água cristalina, atravessado pelos
raios do sol mais ardente", descreve Lúcia. "A sua face, indescritivelmente
bela não era nem triste, nem alegre, mas séria, com ar de suave censura. As
mãos juntas, como a rezar, apoiadas no peito e voltadas para cima. Da mão
direita pendia um rosário. As vestes pareciam feitas só de luz. A túnica era
branca e branco o manto, orlado de ouro que cobria a cabeça da Virgem e lhe
descia até aos pés. Não se Lhe viam os cabelos nem as orelhas." Os traços
da fisionomia Lúcia nunca pôde descrevê-los, pois a sua formosura não cabe em
palavras humanas. Os videntes estavam tão perto de Nossa Senhora - a um metro
de distância, mais ou menos - que ficavam dentro da luz que A cercava, ou que
Ela espargia. O colóquio inicia-se da seguinte maneira:
Nossa Senhora: - Não tenhais medo. Eu não vos faço mal.
Lúcia: - Donde é Vossemecê?
- Sou do Céu ( e Nossa Senhora ergueu as mãos apontando o Céu).
- E que é que Vossemecê me quer?
- Vim para vos pedir que venhais aqui seis meses seguidos, no dia 13, a esta mesma hora. Depois
vos direi quem sou e o que quero. Depois voltarei ainda aqui uma sétima vez.
- E eu também vou para o Céu?
- Sim, vais.
- E a Jacinta?
- Também.
- E o Francisco?
- Também, mas tem que rezar muitos terços.
- A Maria das Neves já está no Céu? (Lúcia referia-se a uma
mulher que tinha morrido recentemente)
- Sim, está.
- E a Amélia?
- Estará no Purgatório até ao fim do mundo. Quereis oferecer-vos a Deus para
suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-vos, em ato de reparação
pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?
- Sim, queremos.
- Ides pois ter muito que sofrer, mas a graça de Deus será o vosso conforto.
"Foi ao pronunciar estas últimas palavras que abriu pela primeira vez
as mãos comunicando-nos uma luz muito intensa, como que reflexo que delas
expedia, que nos penetrava no peito e no mais intimo da alma, fazendo-nos ver a
nós mesmos em Deus, que era essa luz, mais claramente do que nos vemos no
melhor dos espelhos. Então, por um impulso intimo também comunicado, caímos de
joelhos e repetimos intimamente ó Santíssima Trindade, eu Vos adoro, meu Deus
meu Deus eu Vos amo no Santíssimo Sacramento. Passados estes momentos, Nossa
Senhora acrescentou:
- Rezem o terço todos os dias para alcançarem a paz para o mundo e o fim da
guerra (na altura desenrolava-se a Primeira Guerra Mundial).
"Em seguida começou a elevar-se serenamente em direção ao nascente até
desaparecer na imensidade da distância. A luz que A circundava ia como que
abrindo um caminho no cerrado dos astros".

13 de Junho de 1917
Neste dia compareceram no local cerca de 50 pessoas curiosas pelos fatos
entretanto revelados pelos pastorinhos. Por volta do meio-dia, os videntes
notaram novamente um clarão, a que chamavam relâmpago, mas que não era
propriamente tal, mas sim o reflexo de uma luz que se aproximava. Alguns dos
espectadores notaram que a luz do sol se obscureceu durante os minutos que se
seguiram ao início do colóquio, outros afirmaram que o topo da azinheira,
coberto de rebentos, pareceu curvar-se como sob um peso, um momento antes da
Lúcia falar. Durante a troca de palavras entre Lúcia e a aparição alguns
ouviram um sussurro como se fosse o zumbido de uma abelha.
Lúcia: - Vossemecê que me quer?
Nossa Senhora: - Quero que venhais aqui no dia 13 do mês que vem, que rezeis
o terço todos os dias e que aprendam a ler. Depois, direi o que quero. Lúcia
pediu a cura de um doente.
- Se se converter, curar-se-á durante o ano.
- Queria pedir-Lhe para nos levar para o Céu.
- Sim, a Jacinta e o Francisco levo-os em breve. Mas tu ficas cá mais algum
tempo. Jesus quer servir-se de ti para Me fazer conhecer e amar. Ele quer
estabelecer no mundo a devoção ao meu Imaculado Coração. A quem a abraçar,
prometo a salvação e serão queridas de Deus estas almas, como flores postas por
Mim a adornar o seu trono.
- Fico cá sozinha?
- Não, filha. E tu sofres muito? Não desanimes. Eu nunca te deixarei. O meu
Imaculado Coração será o teu refúgio e o caminho que te conduzirá até Deus.
"Foi no momento que disse estas últimas palavras que abriu as mãos e
nos comunicou, pela segunda vez, o reflexo dessa luz imensa. Nela nos víamos
como que submergidos em Deus. A Jacinta e o Francisco pareciam estar na parte
dessa luz que se elevava para o céu e eu na que se espargia sobre a terra. À
frente da palma da mão direita de Nossa Senhora estava um coração cercado de
espinhos que parecia estarem-lhe cravados. Compreendemos que era o Imaculado
Coração de Maria ultrajado pelos pecados da humanidade que queria reparação.
Quando se desvaneceu esta visão, a Senhora, envolta ainda na luz que d'Ela
irradiava, elevou-se da arvorezinha sem esforço, suavemente na direção do leste
até desaparecer de todo."
Algumas pessoas mais próximas notaram que os rebentos do topo da azinheira
estavam tombados na mesma direção, como se as vestes da Senhora os tivessem
arrastado. Só algumas horas mais tarde retomaram a posição natural.
19 de Agosto de 1917
No dia 13 de Agosto, quando deveria dar-se a quarta aparição, os videntes não
puderam ir à Cova da Iria, pois foram raptados pelo administrador de Ourém, que
à força quis arrancar-lhes o segredo. No entanto, as crianças permaneceram
inabaláveis e nada revelaram. Nesse dia, juntou-se uma grande multidão que
aguardava pela aparição. Por volta do meio-dia, ouviu-se um trovão, ao qual se
seguiu o relâmpago, tendo os espectadores notado uma pequena nuvem branca que
pairou alguns minutos sobre a azinheira. Observaram-se também fenômenos de
coloração, de diversas cores, nos rostos das pessoas, das roupas, das árvores e
do chão.
No dia 19 de Agosto de 1917, Lúcia estava com Francisco e seu irmão João no
lugar dos Valinhos, uma propriedade de um dos seus tios e que dista uns 500 metros de Aljustrel.
Pelas 4 horas da tarde, começaram a produzir-se as alterações atmosféricas que
precederam as aparições anteriores, uma súbita diminuição da temperatura e um
esmorecimento do Sol. Lúcia, sentindo que alguma coisa de sobrenatural se
aproximava e os envolvia, pediu ao primo João para chamar rapidamente a
Jacinta, a qual chegou a tempo de ver Nossa Senhora que - anunciada, como das
outras vezes, por um reflexo de luz - apareceu sobre uma azinheira, um pouco
maior que a da Cova da Iria.
Lúcia: - Que é que Vossemecê me quer?
Nossa Senhora: -Quero que continueis a ir à Cova da Iria no dia 13, que
continueis a rezar o terço todos os dias. No último mês farei o milagre para
que todos acreditem.
- Que é que Vossemecê quer que se faça ao dinheiro que o povo deixa na
Cova da Iria?
- Façam dois andores, um leva-o tu com a Jacinta e mais duas meninas;
o outro que o leve o Francisco com mais três meninos. O dinheiro dos andores é
para a festa de Nossa Senhora do Rosário e o que sobrar é para a ajuda de uma
capela que hão de mandar fazer.
-Queria pedir-lhe a cura de alguns doentes.
-Sim, alguns curarei durante o ano. E tomando um aspecto mais triste,
recomendou-lhes novamente a prática da mortificação: - Rezai, rezai
muito e fazei sacrifícios pelos pecadores, que vão muitas almas para o Inferno
por não haver quem se sacrifique e peça por elas. "E, como de
costume, começou a elevar-Se em direção ao nascente." Os videntes cortaram
ramos da árvore sobre a qual Nossa Senhora lhes tinha aparecido e levaram-nos
para casa. Os ramos exalavam um perfume singularmente suave.
13 de Setembro de 1917
Como das outras vezes, uma série de fenômenos atmosféricos foram observados
pelos circunstantes, cujo número foi calculado entre 15 e 20 000 pessoas: o
súbito refrescar da atmosfera, o empalidecer do Sol até ao ponto de se verem as
estrelas, uma espécie de chuva como que de pétalas irisadas ou flocos de neve
que desapareciam antes de pousarem na terra. Em particular, foi notado desta
vez um globo luminoso que se movia lenta e majestosamente pelo céu, do nascente
para o poente e, no fim da aparição, em sentido contrário. Os videntes notaram,
como de costume, o reflexo de uma luz e, a seguir, Nossa Senhora sobre a
azinheira.
Nossa Senhora: - Continuem a rezar o terço para alcançarem o fim da guerra.
Em Outubro, virá também Nosso Senhor, Nossa Senhora das Dores e do Carmo, São
José com o Menino Jesus, para abençoarem o Mundo. Deus está contente com os
vossos sacrifícios, mas não quer que durmais com a corda. Trazei-a só durante o
dia (as crianças tinham passado a usar como cilício uma corda grossa que
não tiravam sequer para dormir; isso impedia-lhes muitas vezes o sono e
passavam noites inteiras em branco, daí o elogio e a recomendação de Nossa
Senhora). Lúcia: - Têm-me pedido para Lhe pedir muitas coisas, a cura de
alguns doentes, de um surdo-mudo.
- Sim, alguns curarei. Outros não. Em Outubro farei o milagre para que todos
acreditem. "E começando a elevar-Se, desapareceu como de costume."
13 de Outubro de 1917
De acordo com os relatos da época,
milhares de pessoas assistiram a um Milagre do Sol, em Fátima, no dia 13 de
Outubro de 1917.
Devido ao fato de os pastorinhos terem revelado que a Virgem Maria iria fazer
um milagre neste dia para que todos acreditassem, estavam presentes na Cova da
Iria cerca de 50 mil pessoas, segundo os relatos da época. Chovia com
abundância e a multidão aguardava as três crianças nos terrenos enlameados da
serra. Lúcia assim descreve estes acontecimentos na Memória IV: "Saímos de
casa bastante cedo, contando com as demoras do caminho. O povo era em massa. A
chuva, torrencial. Minha mãe, temendo que fosse aquele o último dia da minha
vida, com o coração retalhado pela incerteza do que iria acontecer, quis
acompanhar-me. Pelo caminho, as cenas do mês passado, mais numerosas e
comovedoras. Nem a lamaceira dos caminhos impedia essa gente de se ajoelhar na
atitude mais humilde e suplicante. Chegados à Cova de Iria, junto da
carrasqueira, levada por um movimento interior, pedi ao povo que fechasse os
guarda-chuvas para rezarmos o terço. Pouco depois, vimos o reflexo da luz e, em
seguida, Nossa Senhora sobre a carrasqueira.
Lúcia: - Que é que Vossemecê me quer?
Nossa Senhora: – Quero dizer-te que façam aqui uma capela em Minha honra,
que sou a Senhora do Rosário, que continuem sempre a rezar o terço todos os
dias. A guerra vai acabar e os militares voltarão em breve para suas casas.
- Eu tinha muitas coisas para Lhe pedir: se curava uns doentes e se
convertia uns pecadores, etc.
- Uns, sim; outros, não. É preciso que se emendem, que peçam perdão dos seus
pecados.
E tomando um aspecto mais triste:
– Não ofendam mais a Deus Nosso Senhor que já está muito ofendido. E
abrindo as mãos, fê-las refletir no sol. E enquanto que se elevava, continuava
o reflexo da Sua própria luz a projetar-se no sol."
Neste momento, Lúcia diz para a multidão olhar para o sol,
levada por um movimento interior que a isso a impeliu. "Desaparecida
Nossa Senhora, na imensa distância do firmamento, vimos, ao lado do sol, S.
José com o Menino e Nossa Senhora vestida de branco, com um manto azul."
Era a Sagrada Família. "S. José com o Menino pareciam abençoar o Mundo com
uns gestos que faziam com a mão em forma de cruz. Pouco depois, desvanecida
esta aparição, vi Nosso Senhor acabrunhado de dor a caminho do Calvário e Nossa
Senhora que me dava a ideia de ser Nossa Senhora das Dores." Lúcia via
apenas a parte superior do corpo de Nosso Senhor e Nossa Senhora não tinha a
espada no peito. "Nosso Senhor parecia abençoar o Mundo da mesma forma
que S. José. Desvaneceu-se esta aparição e pareceu-me ver ainda Nossa Senhora,
em forma semelhante a Nossa Senhora do Carmo, com o Menino Jesus ao colo."
Enquanto os três pastorinhos eram agraciados com estas visões (apenas Lúcia viu
os três quadros, Jacinta e Francisco viram somente o primeiro), a maior parte
da multidão presente observou o chamado O Milagre do Sol. A chuva que caía
cessou, as nuvens entreabriram-se deixando ver o Sol, assemelhando-se a um
disco de prata fosca, podia fitar-se sem dificuldade sem cegar. A imensa bola
começou a girar vertiginosamente sobre si mesma como uma roda de fogo. Depois,
os seus bordos tornaram-se escarlates e deslizou no céu, como um redemoinho,
espargindo chamas vermelhas de fogo. Essa luz refletia-se no solo, nas árvores,
nas próprias faces das pessoas e nas roupas, tomando tonalidades brilhantes e
diferentes cores. Animado três vezes por um movimento louco, o globo de fogo
pareceu tremer, sacudir-se e precipitar-se em ziguezague sobre a multidão
aterrorizada. Tudo durou uns dez minutos. Finalmente, o sol voltou em
ziguezague para o seu lugar e ficou novamente tranquilo e brilhante. Muitas
pessoas notaram que as suas roupas, ensopadas pela chuva, tinham secado
subitamente. Tal fenômeno foi testemunhado por milhares de pessoas, até mesmo
por outras que estavam a quilômetros do lugar das aparições. O relato foi
publicado na imprensa por diversos jornalistas que ali se deslocaram e que
foram também eles, testemunhas do milagre.
O ciclo das aparições em Fátima tinha terminado.
Aparições particulares a Jacinta
* Jacinta vê o Santo Padre -
Lúcia assim relata na sua Terceira Memória: "Um dia, fomos passar as horas
da sesta para junto do poço de meus pais. A Jacinta sentou-se nas lajes do
poço; o Francisco, comigo, foi procurar o mel silvestre nas silvas dum silvado
duma ribanceira que aí havia. Passado um pouco de tempo, a Jacinta chama por
mim: – Não viste o Santo Padre? – Não! – Não sei como foi! Eu vi o Santo Padre
em uma casa muito grande, de joelhos, diante de uma mesa, com as mãos na cara,
a chorar. Fora da casa estava muita gente e uns atiravam-Ihe pedras, outros
rogavam-lhe pragas e diziam-lhe muitas palavras feias. Coitadinho do Santo
Padre! Temos que pedir muito por Ele. Em outra ocasião, fomos para a Lapa do
Cabeço. Chegados aí, prostramo-nos por terra, a rezar as orações do Anjo.
Passado algum tempo, a Jacinta ergue-se e chama por mim: – Não vês tanta
estrada, tantos caminhos e campos cheios de gente, a chorar com fome, e não tem
nada para comer? E o Santo Padre em uma Igreja, diante do Imaculado Coração de
Maria, a rezar? E tanta gente a rezar com Ele?
* Visões da guerra - "Um dia fui a sua casa, para estar um pouco
com ela. Encontrei-a sentada na cama, muito pensativa. – Jacinta, que estás a
pensar? – Na guerra que há de vir. Há de morrer tanta gente! E vai quase toda
para o inferno! Hão de ser arrasadas muitas casas e mortos muitos Padres
(tratava-se da Segunda Guerra Mundial). Olha: eu vou para o Céu. E tu, quando
vires, de noite, essa luz que aquela Senhora disse que vem antes, foge para lá
também! – Não vês que para o Céu não se pode fugir? – É verdade! Não podes. Mas
não tenhas medo! Eu, no Céu, hei de pedir muito por ti, por o Santo Padre, por
Portugal, para que a guerra não venha para cá, e por todos os Sacerdotes.
* Visitas de Nossa Senhora - A 23 de Dezembro de 1918, Francisco e
Jacinta adoeceram ao mesmo tempo. Indo visitá-los, Lúcia encontrou Jacinta no
auge da alegria. Na sua Primeira Memória, Lúcia conta: "Um dia mandou-me
chamar: que fosse junto dela depressa. Lá fui, correndo. – Nossa Senhora
veio-nos ver e diz que vem buscar o Francisco muito breve para o Céu. E a mim
perguntou-me se queria ainda converter mais pecadores. Disse-Lhe que sim.
Disse-me que ia para um hospital, que lá sofreria muito; que sofresse pela
conversão dos pecadores, em reparação dos pecados contra o Imaculado Coração de
Maria e por amor de Jesus. Perguntei se tu ias comigo. Disse que não. Isto é o
que me custa mais. Disse que ia minha mãe levar-me e, depois, fico lá sozinha!
Em fins de Dezembro de 1919, de novo a Santíssima Virgem se dignou visitar a
Jacinta, para Ihe anunciar novas cruzes e sacrifícios. Deu-me a notícia e
dizia-me: – Disse-me que vou para Lisboa, para outro hospital; que não te torno
a ver, nem os meus pais; que, depois de sofrer muito, morro sozinha, mas que
não tenha medo; que me vai lá Ela buscar para o Céu. Durante a sua permanência
de 18 dias no hospital em Lisboa, Jacinta foi favorecida com novas visitas de
Nossa Senhora, que lhe anunciou o dia e a hora em que haveria de morrer. Quatro
dias antes de a levar para o Céu, a Santíssima Virgem tirou-lhe todas as dores.
Nas vésperas da sua morte, alguém lhe perguntou se queria ver a mãe, ao que ela
respondeu: - A minha família durará pouco tempo e em breve se encontrarão no
Céu… Nossa Senhora aparecerá outra vez, mas não a mim, porque com certeza
morro, como Ela me disse".
Continuação: Aparições de Fátima -
Aparições particulares a Lúcia
A 13 de outubro, estando presentes na Cova da Iria
cerca de 50 mil pessoas, Nossa Senhora teria dito às crianças: "Eu sou a
Senhora do Rosário" e teria pedido que fizessem ali uma capela em sua
honra (que atualmente é a parte central do Santuário de Fátima). Muitos dos presentes afirmaram ter observado o
chamado milagre do sol, prometido às três crianças em julho e setembro. Segundo
os testemunhos recolhidos na época, o sol, assemelhando-se a um disco de prata
fosca, podia fitar-se sem dificuldade e girava sobre si mesmo como uma roda de
fogo, parecendo precipitar-se na terra. Tal fenômeno foi testemunhado por
muitas pessoas, até mesmo distantes do lugar da aparição. O relato foi publicado
na imprensa por vários jornalistas que ali se deslocaram e que foram
testemunhas do fenômeno. Contudo, há testemunhos de pessoas que afirmaram nada
ter visto, como é o caso do escritor António Sérgio, que esteve presente no
local e testemunhou que nada se passara de extraordinário com o sol, e do
militante católico Domingos Pinto Coelho, que escreveu na imprensa que não vira
nada de sobrenatural. Entretanto, testemunhas da época disseram que o fato não
aconteceu com o sol (este ficou do mesmo tamanho) mas sim que, no lugar onde
Nossa Senhora apareceu para os pastores, deu-se uma luminosidade tão intensa
que ninguém conseguiu ficar com os olhos abertos, ninguém conseguiu ver Nossa
Senhora, apenas os três pastores.
Posteriormente, sendo Lúcia religiosa doroteia, Nossa Senhora ter-lhe-á
aparecido novamente em Espanha (10 de Dezembro de 1925 e 15 de Fevereiro de
1926, no Convento de Pontevedra, e na noite de 13 para 14 de Junho de 1929, no
Convento de Tuy), pedindo a devoção dos cinco primeiros sábados (rezar o terço,
meditar nos mistérios do Rosário, confessar-se e receber a Sagrada Comunhão, em
reparação dos pecados cometidos contra o Imaculado Coração de Maria) e a
Consagração da Rússia ao mesmo Imaculado Coração.
Anos mais tarde, Lúcia contou ainda que, entre abril e outubro de 1916, teria
já aparecido um anjo aos três pastorinhos, por três vezes, duas na Loca do
Cabeço e outra junto ao poço do quintal da casa de Lúcia, convidando-os à
oração e penitência, e afirmando ser o "Anjo de Portugal".
Este anjo teria ensinado aos pastorinhos duas orações, conhecidas por Orações
do Anjo, que entraram na piedade popular e são utilizadas sobretudo na adoração
eucarística.

Síntese da Mensagem de Fátima
Os três pastorinhos de Fátima
(1917).
Segundo a Irmã Lúcia, no seu último livro publicado em 2006, toda a mensagem
subjacente às aparições de Nossa Senhora de Fátima é o seguinte:
" No decorrer de toda a Mensagem, a começar pelas
aparições do Anjo, encontramos um apelo à oração e ao sacrifício oferecido a
Deus por amor e conversão dos pecadores. Para mim, este apelo é como que a
norma básica de toda a Mensagem, que começa por introduzir-nos num plano de fé,
esperança e amor: "Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-vos". É
aqui que assenta a base fundamental de toda a nossa vida sobrenatural: viver de
fé, viver de esperança, viver de amor. "
Monumento
No dia 13 de maio de 2008 foi inaugurada em Fortaleza, Ceará a maior imagem de
Nossa Senhora de Fátima do mundo. A estátua tem 15 metros de altura e foi
feita pelo artista plástico Franciner Macário Diniz.
Referências
1. ↑ CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL REGIONAL OESTE 2. Nossa Senhora
de Fátima. Disponível em: . Acesso em: 28 nov. 2009.
2. ↑ SANTOS, Lúcia de Jesus dos [Irmã Lúcia]. Como vejo a Mensagem ao longo do
tempo e dos acontecimentos. Coimbra: Carmelo de Coimbra, Secretariado dos
Pastorinhos, 2006, p. 48.
3. ↑ CE: inaugurada maior estátua de Fátima do mundo. Terra Networks Brasil,
São Paulo, 13 maio 2008. Disponível em: . Acesso em: 28 nov. 2009.
E o segredo de Fátima não é para despertar o medo, mas para chamar ao amor,
para conclamar o mundo à paz, não à guerra, à competição, ao ódio, à separação,
ao menosprezo, ao descartamento do inútil, do mais fraco, do indesejável, do
não produtivo.
Mãe atenta, Maria, de Fátima para o mundo, alertava e continua alertando
para não cairmos nas seduções do poder, do sucesso, das riquezas e até do
saber. Mãe amorosa, Virgem fiel, Rainha da Igreja e dos profetas, Estrela do
mar, Maria de Fátima sabe que seu coração triunfará. Porque o Amor é a lei. E
outra não há.
Que com Francisco, Jacinta e Lúcia fiquemos a seus pés, confiantes de que ela
nos conduzirá pela mão até Jesus.
Frei Yves Terral