domingo, 16 de novembro de 2025

Artigo sobre a babosa (aloe vera)

A busca por terapias complementares é uma prática comum no Brasil, entre estas a utilização das plantas medicinais. Estas terapias têm sido responsáveis pela resolução de alguns distúrbios que acometem o ser humano em seu processo saúde-doença.

No Brasil, a partir de 1980, alguns estados e municípios começaram a oferecer determinadas terapias complementares no sistema de saúde, a exemplo da fitoterapia, homeopatia e acupuntura.2 devido à busca, pela população, de outras terapias, além das convencionais, que supram suas necessidades de saúde, a inserção das terapias complementares vem sendo incentivada no Brasil, oportunizando sua ampliação e execução no Sistema Único de Saúde (SUS), em busca da integralidade da assistência.

As terapias complementares visam à assistência integral ao indivíduo, com mente, corpo e espírito integrados, visando a promoção da saúde mediante um enfoque holístico, considerando o estilo de vida do usuário, suas relações sociais, suas emoções, seus hábitos alimentares, entre outros.

nesta perspectiva, para a utilização segura de cada planta, deverão ser conhecidos, além dos efeitos benéficos ao organismo humano, também suas contraindicações. no universo das plantas medicinais, encontram-se várias espécies de Aloe, popularmente conhecida como babosa, a qual é o foco deste estudo. pertence à família das Liliáceas e do gênero Aloe, englobando mais de 300 espécies, muitas delas são utilizadas em vários países, inclusive no Brasil, para fins medicinais e cosméticos. É uma planta aclimatada no Brasil, porém espontânea das regiões tropicais, especialmente África Oriental e Meridional. dentre as espécies existentes, as mais conhecidas são: Aloe socotrina, Aloe arborescens, Aloe chinensis, Aloe ferox e Aloe vera. Esta última é a mais estudada pelas indústrias alimentícia, farmacêutica, cosmética e fitoterápica.

A medicina convencional, representada no sistema oficial de saúde do Brasil pelo modelo biomédico, estabelece o tratamento do câncer por meio da cirurgia, da quimioterapia e da radioterapia, sendo todos esses procedimentos considerados penosos pelo usuário e sua família.6 Entretanto, alguns portadores de câncer, ao defrontar-se com a doença, optam por tratamentos não convencionais para minimizar os sintomas,7 entre estes a utilização das plantas medicinais. Estudo realizado com 40 pessoas portadoras de câncer, em João pessoa (pB), sobre o uso de plantas medicinais, evidenciou que 47,5% utilizaram alguma planta com o objetivo de tratar a doença.

Foi observado, ao longo dos três anos de atuação de uma equipe de programa de internação domiciliar interdisciplinar (pidi) Oncológico, que alguns usuários utilizavam empiricamente a babosa (Aloe spp.) como terapia complementar. diante deste contexto, o estudo teve como objetivo investigar a utilização da Aloe spp. pelos usuários portadores de câncer, no tratamento da doença.

Foram entrevistados onze usuários do pidi Oncológico, sendo seis do sexo feminino. Em relação à idade, cinco (45%) encontravam-se na faixa etária entre 61 e 70 anos e quatro (36,4%) eram portadores de câncer no sistema digestivo.

Entre os onze portadores de câncer, nove sabiam sobre a possibilidade de utilização da Aloe spp. para o tratamento do câncer, mas apenas três referiram ter utilizado a planta. Um entrevistado utilizou-a para tratar o sintoma de tosse. todos os entrevistados que referiram o uso da babosa como terapia complementar no tratamento do câncer mantiveram o tratamento convencional. dos três entrevistados que referiam ter utilizado a Aloe spp., dois apreenderam o preparo da receita pela troca de experiências com outros usuários que utilizavam o mesmo serviço de quimioterapia e um citou ter empregado por recomendação de uma religiosa da cidade que trabalha com plantas medicinais. Entre os seis usuários que não utilizaram a planta, dois gostariam de ter usado, mas devido à falta de recursos financeiros, não puderam adquirir o mel; um ouviu o assunto em um programa na televisão, porém não se interessou; e três não utilizaram por não acreditarem na eficácia da planta. não foi possível identificar a espécie de Aloe utilizada pelos entrevistados, pois nenhum possuía a planta no momento da coleta dos dados. Quanto à posologia, referiram utilizar “uma colher de sopa três vezes ao dia”, de acordo com orientações recebidas. todos os sujeitos que referiram conhecer a utilização da babosa, citaram receitas semelhantes.

“Minha cunhada me ensinou a bater no liquidificador um metro de babosa, mais meio quilo de mel e um copo de vinho de laranja.” (M.J.S., 49 anos). “tirar os espinhos, bater no liquidificador um metro de babosa, meio quilo de mel e um copo de qualquer bebida alcoólica pra conservar o xarope. A irmã [...] me ensinou.” (E.S., 67 anos). “Babosa, mel e cachaça batida no liquidificador. Quem ensinou foi uma paciente da oncologia da [...] que fazia quimioterapia junto.” (G.M.A., 76 anos). Como podemos observar, os usuários buscaram orientações no sistema informal para o tratamento do câncer, uma vez que o serviço de saúde no qual estavam em acompanhamento não supriu esta necessidade. nenhuma informação foi fornecida por profissionais de saúde, mostrando uma lacuna no conhecimento destes, destacando a importância da implantação da pnpiC no SUS, visando uma abordagem sistêmica do indivíduo. As receitas citadas pelos entrevistados assemelham-se à publicada em um livro,9 o qual afirma que a espécie Aloe arborescens apresenta melhores resultados que a Aloe vera para o tratamento do câncer. para a realização da receita, utiliza-se babosa (A. arborescens), mel e bebida destilada, nas seguintes proporções: meio quilo de mel de abelha (mel puro, natural); 40 a 50 ml (5 a 6 colheres) de bebida destilada (cachaça de alambique, uísque ou conhaque); folhas de babosa: duas, três, quatro, cinco, ou mais, tantas que, em fila indiana, se aproximem de um metro de comprimento. devem-se extrair os espinhos das bordas das folhas, cortar sem remover a casca e em seguida bater todos os ingredientes no liquidificador. tomar uma colher de sopa, entre 10 a 20 minutos antes do café da manhã, almoço e jantar.

O uso interno diário de preparados que contêm antraquinonas, um dos grupos químicos da Aloe, por períodos prolongados (mais de três meses), pode provocar dores abdominais, diarreia sanguinolenta, hemorragias gástricas e nefrite. Os sintomas de intoxicação por consumo excessivo do látex são hipocalemia, hiperaldosteronismo, bradicardia e hipotermia. O sintoma mais importante nos quadros de intoxicação é a diarreia.12,13 não é indicada a ingestão da folha da Aloe com a casca devido aos efeitos tóxicos provocados por seus componentes químicos.

O sumo mucilaginoso (gel) de suas folhas possui atividade fortemente cicatrizante devido ao polissacarídio presente e uma boa ação antimicrobiana sobre bactérias e fungos, resultante do complexo formado pelo aloeferon e as antraquinonas. É indicada como cicatrizante nos casos de queimadura e ferimentos superficiais da pele.

Alguns estudos encontraram resultados positivos com o uso de diferentes espécies de Aloe. A utilização da A. arborescens causou uma diminuição do câncer intestinal, devido ao efeito supressor no crescimento do tumor intestinal.14 também possui ação cicatrizante, antibacteriana e antifúngica.

Em uma pesquisa realizada com pacientes que possuíam diagnóstico de tumores metastáticos e faziam quimioterapia, foi administrado, a um grupo, 10 ml de extrato de A. arborescens por via oral três vezes/dia, além da quimioterapia; a outro grupo apenas se manteve o tratamento quimioterápico. Os pacientes que utilizaram o extrato de A. arborescens apresentaram regressão do tumor e uma sobrevida de 1 ano em relação aos pacientes que utilizaram somente a quimioterapia.16 investigação realizada com a A. saponaria evidenciou seus benefícios quando aplicada nas células tumorais, inibindo a ativação de células cancerígenas e melhorando as células normais.

também possui efeito protetor na mucosa gástrica, reduzindo significativamente os casos de hemorragias desencadeadas por lesões no estômago,21 ação hipoglicemiante22 e hipolipidêmica.

Além de auxiliar na cicatrização, pela ação antiinflamatória com o uso tópico em feridas,24 a A. vera possui propriedades antioxidantes, analgésicas, atividade antiviral, antimicrobiana e antissecretora de ácido gástrico. Além disso, protege a integridade da pele, evitando dermatites de contato.25-29 Ainda possui ação imunoestimulante e antifúngica, resultando em uma melhora dos sintomas decorrentes de fungos como, por exemplo, a Candida albicans.

Devido aos princípios ativos, que inclusive auxiliam na melhora do sistema imunológico quando associados a outros componentes da planta, esta pode trazer resultados positivos ao organismo do indivíduo fragilizado pela doença e pelo tratamento alopático, surgindo como uma terapia complementar a ser utilizada pelos portadores de câncer em busca da cura e/ou da melhora dos sintomas e da qualidade de vida.

Ceolin t, Heck RM, Barbieri RL, Souza AdZ, Rodrigues WF, Vanini M. plantas medicinais utilizadas como calmantes por agricultores ecológicos da região Sul do Rio Grande do Sul, Brasil. Rev Enferm. UFpE on line. 2009;3(4):253-60. Extraído de [http://www.ufpe.br/revistaenfermagem/ index.php/revista/article/ viewFile/116/116], acesso em [20 de dezembro de 2009].

Retirado da Revista Baiana de Saúde Pública – Artigo: UTILIZAÇÃO DA BABOSA NO COTIDIANO DE USUÁRIOS PORTADORES DE CÂNCER - Juliana Graciela Vestena Zillmer (v.34, n.4, p. 773-782 out./dez. 2010)

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