A busca por terapias complementares é uma prática comum no Brasil, entre
estas a utilização das plantas medicinais. Estas terapias têm sido responsáveis
pela resolução de alguns distúrbios que acometem o ser humano em seu processo saúde-doença.
No Brasil, a partir de 1980, alguns estados e municípios começaram a
oferecer determinadas terapias complementares no sistema de saúde, a exemplo da
fitoterapia, homeopatia e acupuntura.2 devido à busca, pela população, de
outras terapias, além das convencionais, que supram suas necessidades de saúde,
a inserção das terapias complementares vem sendo incentivada no Brasil,
oportunizando sua ampliação e execução no Sistema Único de Saúde (SUS), em
busca da integralidade da assistência.
As terapias complementares visam à assistência integral ao indivíduo, com
mente, corpo e espírito integrados, visando a promoção da saúde mediante um
enfoque holístico, considerando o estilo de vida do usuário, suas relações
sociais, suas emoções, seus hábitos alimentares, entre outros.
nesta perspectiva, para a utilização segura de cada planta, deverão ser
conhecidos, além dos efeitos benéficos ao organismo humano, também suas
contraindicações. no universo das plantas medicinais, encontram-se várias
espécies de Aloe, popularmente conhecida como babosa, a qual é o foco deste
estudo. pertence à família das Liliáceas e do gênero Aloe, englobando mais de
300 espécies, muitas delas são utilizadas em vários países, inclusive no
Brasil, para fins medicinais e cosméticos. É uma planta aclimatada no Brasil,
porém espontânea das regiões tropicais, especialmente África Oriental e
Meridional. dentre as espécies existentes, as mais conhecidas são: Aloe
socotrina, Aloe arborescens, Aloe chinensis, Aloe ferox e Aloe vera. Esta última
é a mais estudada pelas indústrias alimentícia, farmacêutica, cosmética e
fitoterápica.
A medicina convencional, representada no sistema oficial de saúde do
Brasil pelo modelo biomédico, estabelece o tratamento do câncer por meio da
cirurgia, da quimioterapia e da radioterapia, sendo todos esses procedimentos
considerados penosos pelo usuário e sua família.6 Entretanto, alguns portadores
de câncer, ao defrontar-se com a doença, optam por tratamentos não
convencionais para minimizar os sintomas,7 entre estes a utilização das plantas
medicinais. Estudo realizado com 40 pessoas portadoras de câncer, em João
pessoa (pB), sobre o uso de plantas medicinais, evidenciou que 47,5% utilizaram
alguma planta com o objetivo de tratar a doença.
Foi observado, ao longo dos três anos de atuação de uma equipe de
programa de internação domiciliar interdisciplinar (pidi) Oncológico, que
alguns usuários utilizavam empiricamente a babosa (Aloe spp.) como terapia
complementar. diante deste contexto, o estudo teve como objetivo investigar a
utilização da Aloe spp. pelos usuários portadores de câncer, no tratamento da
doença.
Foram entrevistados onze usuários do pidi
Oncológico, sendo seis do sexo feminino. Em relação à idade, cinco (45%)
encontravam-se na faixa etária entre 61 e 70 anos e quatro (36,4%) eram
portadores de câncer no sistema digestivo.

Entre os onze portadores de câncer, nove sabiam sobre a possibilidade de
utilização da Aloe spp. para o tratamento do câncer, mas apenas três referiram
ter utilizado a planta. Um entrevistado utilizou-a para tratar o sintoma de
tosse. todos os entrevistados que referiram o uso da babosa como terapia
complementar no tratamento do câncer mantiveram o tratamento convencional. dos
três entrevistados que referiam ter utilizado a Aloe spp., dois apreenderam o
preparo da receita pela troca de experiências com outros usuários que
utilizavam o mesmo serviço de quimioterapia e um citou ter empregado por
recomendação de uma religiosa da cidade que trabalha com plantas medicinais.
Entre os seis usuários que não utilizaram a planta, dois gostariam de ter
usado, mas devido à falta de recursos financeiros, não puderam adquirir o mel;
um ouviu o assunto em um programa na televisão, porém não se interessou; e três
não utilizaram por não acreditarem na eficácia da planta. não foi possível
identificar a espécie de Aloe utilizada pelos entrevistados, pois nenhum
possuía a planta no momento da coleta dos dados. Quanto à posologia, referiram
utilizar “uma colher de sopa três vezes ao dia”, de acordo com orientações
recebidas. todos os sujeitos que referiram conhecer a utilização da babosa,
citaram receitas semelhantes.
“Minha cunhada me ensinou a bater no liquidificador um metro de babosa,
mais meio quilo de mel e um copo de vinho de laranja.” (M.J.S., 49 anos).
“tirar os espinhos, bater no liquidificador um metro de babosa, meio quilo de
mel e um copo de qualquer bebida alcoólica pra conservar o xarope. A irmã [...]
me ensinou.” (E.S., 67 anos). “Babosa, mel e cachaça batida no liquidificador.
Quem ensinou foi uma paciente da oncologia da [...] que fazia quimioterapia
junto.” (G.M.A., 76 anos). Como podemos observar, os usuários buscaram
orientações no sistema informal para o tratamento do câncer, uma vez que o
serviço de saúde no qual estavam em acompanhamento não supriu esta necessidade.
nenhuma informação foi fornecida por profissionais de saúde, mostrando uma
lacuna no conhecimento destes, destacando a importância da implantação da pnpiC
no SUS, visando uma abordagem sistêmica do indivíduo. As receitas citadas pelos
entrevistados assemelham-se à publicada em um livro,9 o qual afirma que a
espécie Aloe arborescens apresenta melhores resultados que a Aloe vera para o
tratamento do câncer. para a realização da receita, utiliza-se babosa (A.
arborescens), mel e bebida destilada, nas seguintes proporções: meio quilo de
mel de abelha (mel puro, natural); 40 a 50 ml (5 a 6 colheres) de bebida
destilada (cachaça de alambique, uísque ou conhaque); folhas de babosa: duas,
três, quatro, cinco, ou mais, tantas que, em fila indiana, se aproximem de um
metro de comprimento. devem-se extrair os espinhos das bordas das folhas,
cortar sem remover a casca e em seguida bater todos os ingredientes no
liquidificador. tomar uma colher de sopa, entre 10 a 20 minutos antes do café
da manhã, almoço e jantar.
O uso interno diário de preparados que contêm
antraquinonas, um dos grupos químicos da Aloe, por períodos prolongados (mais
de três meses), pode provocar dores abdominais, diarreia sanguinolenta,
hemorragias gástricas e nefrite. Os sintomas de intoxicação por consumo
excessivo do látex são hipocalemia, hiperaldosteronismo, bradicardia e
hipotermia. O sintoma mais importante nos quadros de intoxicação é a
diarreia.12,13 não é indicada a ingestão da folha da Aloe com a casca devido aos
efeitos tóxicos provocados por seus componentes químicos.
O sumo mucilaginoso (gel) de suas folhas possui atividade fortemente
cicatrizante devido ao polissacarídio presente e uma boa ação antimicrobiana
sobre bactérias e fungos, resultante do complexo formado pelo aloeferon e as
antraquinonas. É indicada como cicatrizante nos casos de queimadura e
ferimentos superficiais da pele.
Alguns estudos encontraram resultados positivos com o uso de diferentes
espécies de Aloe. A utilização da A. arborescens causou uma diminuição do
câncer intestinal, devido ao efeito supressor no crescimento do tumor
intestinal.14 também possui ação cicatrizante, antibacteriana e antifúngica.
Em uma pesquisa realizada com pacientes que possuíam diagnóstico de
tumores metastáticos e faziam quimioterapia, foi administrado, a um grupo, 10
ml de extrato de A. arborescens por via oral três vezes/dia, além da
quimioterapia; a outro grupo apenas se manteve o tratamento quimioterápico. Os
pacientes que utilizaram o extrato de A. arborescens apresentaram regressão do
tumor e uma sobrevida de 1 ano em relação aos pacientes que utilizaram somente
a quimioterapia.16 investigação realizada com a A. saponaria evidenciou seus
benefícios quando aplicada nas células tumorais, inibindo a ativação de células
cancerígenas e melhorando as células normais.
também possui efeito protetor na mucosa gástrica, reduzindo
significativamente os casos de hemorragias desencadeadas por lesões no
estômago,21 ação hipoglicemiante22 e hipolipidêmica.
Além de auxiliar na cicatrização, pela ação antiinflamatória com o uso
tópico em feridas,24 a A. vera possui propriedades antioxidantes, analgésicas,
atividade antiviral, antimicrobiana e antissecretora de ácido gástrico. Além
disso, protege a integridade da pele, evitando dermatites de contato.25-29
Ainda possui ação imunoestimulante e antifúngica, resultando em uma melhora dos
sintomas decorrentes de fungos como, por exemplo, a Candida albicans.
Devido aos princípios ativos, que inclusive auxiliam na melhora do
sistema imunológico quando associados a outros componentes da planta, esta pode
trazer resultados positivos ao organismo do indivíduo fragilizado pela doença e
pelo tratamento alopático, surgindo como uma terapia complementar a ser
utilizada pelos portadores de câncer em busca da cura e/ou da melhora dos
sintomas e da qualidade de vida.
Ceolin t, Heck RM,
Barbieri RL, Souza AdZ, Rodrigues WF, Vanini M. plantas medicinais utilizadas
como calmantes por agricultores ecológicos da região Sul do Rio Grande do Sul,
Brasil. Rev Enferm. UFpE on line. 2009;3(4):253-60. Extraído de
[http://www.ufpe.br/revistaenfermagem/ index.php/revista/article/
viewFile/116/116], acesso em [20 de dezembro de 2009].
Retirado da Revista Baiana de Saúde Pública – Artigo:
UTILIZAÇÃO DA BABOSA NO COTIDIANO DE USUÁRIOS PORTADORES DE CÂNCER - Juliana Graciela Vestena Zillmer (v.34, n.4, p.
773-782 out./dez. 2010)